Quarta é a nova sexta

Noite de quarta-feira começando no teatro Klauss Vianna. Atualmente, depois de tantas Quartas de Pegada, já não me é tão estranho pensar em rock no meio da semana. Mas em um teatro? É isso mesmo? Foi o que eu vi com esses meus olhinhos que a terra há de comer. O adorável trio The Hell’s Kitchen Project balançou as estruturas do palco e mostrou, como sempre o faz, que guitarra é sim, muito bacana, mas é dispensável. O show começou tranqüilo, os caras não tinham se acostumado com o espaço extra (uma das melhores performances deles que vi foi no Nelson Bordello, bota intimista nisso). O teatro estava bastante cheio para uma quarta. A cozinha foi esquentando, e com ela, a banda e a plateia. Já na segunda música, não agüentei e levantei para dançar num canto. Vi um tanto de gente se sentindo desconfortável na cadeira, mas sem se levantar, talvez não possuindo a sem-vergonhice dessa que vos fala.

Galera toda no palco
Galera toda no palco

 As participações deram um toque especial às músicas, misturando a influência de várias bandas de BH. Cido do Utopia!, foi o primeiro. Uns dezoito anos nas costas e o cara não fez feio no palco. Debulhou uma guitarra nervosa e dançante, esbanjando simpatia e humildade. Uma dupla de sax (Sérgio Danilo) e trombone (Leo Brasilino) tocou em seguida. Não imaginei como funcionaria, mas como deu certo, com metal completando o som do trio muito bem. O Jubão da Curved, com a sua “guitarra horizontal”, agradou tanto que ouvi comentários de que deveria entrar para a banda de uma vez. Impressionante como os sons se casaram, a guitarra quase como uma sirene de ambulância, dando um tom de urgência e antecipação à música. Gui do Monograma veio em seguida, também não deixou por menos e deu uma pincelada indie ao grupo. O rock ficou bonito, bem tocado, sentido. A essa altura, já no fim do show, a galera foi à loucura. Ninguém queria ir embora sem um bis. Jon, sempre carismático (adoro a dancinha!), chamou os cinco músicos ao palco, com direito a um pequeno solo de cada. Ao fim, todos juntos fecharam essa parte da noite com chave de ouro, improvisando loucamente.

Saindo do teatro, já regada a cerveja quente (cortesia do Jubão, que subtraiu umas pra gente. Valeu!), fui com uma galera animada, bonita e saudável desse nosso Brasil, até A Obra. Tinha expectativas altas para o próximo show, lançamento do CD dos Cães do Cerrado, uma das bandas mais politicamente incorretas do universo. A primeira surpresa foi um micro show de amigos da banda. Quando os caras finalmente subiram no palco, me dei conta de quão cheia A Obra estava. Alguém comentou que nunca tinha visto uma quarta-feira tão movimentada. O show já começou com a galera quebrando tudo. Talvez pelo fato de o CD ter sido disponibilizado virtualmente antes do show, muita gente cantava junto com a banda (tá, ta, ou então eles simplesmente têm muitos fãs e amigos!). Pessoalmente, quando ouvi “a nova onda cool é tomar cerveja na Guiana Francesa”, não agüentei e entrei no mosh. Com as suas músicas curtas, direto ao ponto e extremamente enfáticas, ninguém ficou parado. Ressalto um episódio em que o Jonathan (da banda Quase Coadjuvante), já um tanto alcoolizado, despejou o conteúdo de sua mochila no chão no meio do mosh, todo mundo parou e o ajudou a guardar as suas coisas. Solidariedade no rock é assim mesmo!

Cães quebrando tudo
Cães quebrando tudo

 O show continuou intenso e lindo (apesar do nome Sujo, Feio e Barulhento), com a melhor vibe possível. Ao ouvir anunciar o final, a platéia reagiu nervosamente pedindo bis, ao que os caras responderam “Galera, a gente já tocou tudo!”. Claro, o público pediu para repetir e foi o que aconteceu. Com direito a montinho nos últimos momentos, os Cães fecharam a noite (agora sim!) dessa quarta deliciosamente insana, deixando A Obra com um gosto de quero mais.

 

Símbolo do Pegada

* Importantíssimo acrescentar algo sobre o organizador do evento, o Coletivo Pegada. Para quem não conhece (se é que há alguém nessa cidade que não os conheça! Perde tempo não, gente!). Representante de BH no Circuito Fora do Eixo, o Pegada movimenta a cidade o ano inteiro com agendas, entrevistas, indicações, eventos, festivais e muito mais! É impressionante ver como tanta gente trabalha tanto por amor à música e à cultura. Eu não canso de me emocionar com a dedicação dessa galera, que em grande parte, larga empregos convencionais (e tantas outras convenções) e se entrega totalmente à produção cultural. Aproveito para agradecer o trabalho de todos eles, dar os parabéns por tanta competência e dizer que seus eventos têm a melhor vibe do planeta! Beijocas, queridos!

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